

RENÊ. O REBELDE
Faz alguns anos, havia na França uma escola de fama péssima, por causa dum punhado de alunos desordeiros e revoltados, que infernizavam a vida normal da classe. Não havia professor que conseguisse impor respeito e disciplina e por isso mesmo não havia quem aceitasse a incumbência de dar aulas naquela sala.
Um dia, porém, um milagre aconteceu: Um jovem professor apresentou-se ao diretor, disposto a preencher a vaga deixada por seu antecessor, que há alguns dias fora corrido daquela sala pelos rebeldes. Visivelmente preocupado, o diretor olhou para o jovem e franzino professor e lhe disse: “Muito bem, meu caro jovem; mas o senhor sabe o que está requerendo? O senhor tem idéia da situação em que se encontra aquela classe? Sinceramente, temo que vai sofrer derrota pior que seu antecessor”. Mas o jovem respondeu, com muita simplicidade e calma: “Pode ser, Sr. Diretor, mas deixe-me experimentar”.
A notícia da sua nomeação correu célere. Ainda antes da primeira aula, Renê, o líder do grupo, proclamou aos seus camaradas: “Para dobrar um homenzinho destes, não preciso da ajuda de ninguém. A este eu vou surrar sozinho!...”
Ao entrar na sala de aula, o professor saudou amavelmente os alunos: “Bom dia, rapazes. Eu vim para dar aula a vocês”.
Uma gargalhada estrondosa foi a resposta.
“Mas eu quero ter uma aula em boa ordem”, continuou o professor, sem se alterar. Sua serenidade pegou a turma desprevenida e causou-lhes forte impressão.
Depois que voltara a calma ao ambiente, o professor continuou: ”Digo-lhes francamente, que não sei como vou conseguir isso se vocês não me ajudarem. É isso mesmo, preciso da ajuda de vocês.”
Esta proposta parecia agradar aos jovens alunos. Eles iriam participar ativamente, ajudando ao professor. Isso seria ótimo!
“Que tal – continuou ele- se vocês mesmos redigissem as normas, segundo as quais nós regemos? Vocês ditam as normas e eu as escrevo na pedra. Depois vamos debatê-las até chegarmos a um acordo. E se alguém transgredir estas normas que vocês estabeleceram, este deverá ser punido. Combinado?”
Os rapazes apoiaram com um aceno de cabeça e um deles começou: “Primeira regra: Não mais roubar”! Sua voz parecia trair certa indignação, porque muitos objetos já lhe haviam sido subtraídos.
Um segundo propôs: “Não chegar mais atrasado!” Também isto foi aceito. E assim continuou até que finalmente10 regras apareciam no quadro.
Então o professor concluiu: “Vocês sabem que leis e normas não têm valor se não são observadas. Por isso, quem as transgride, deve ser punido, certo”?
“Certo”! Responderam todos em coro.
“E que castigo vamos impor ao transgressor de uma destas normas”? – continuou o professor.
Esta pergunta causou indescritível impressão nos alunos. Eles sim, eles mesmos deveriam determinar qual o castigo a ser aplicado a quem transgredisse as normas por eles estabelecidas. Em cada rosto parecia começara brilhar certo ar de autoridade e amadurecimento. Depois de deliberarem por uns momentos, chegaram à conclusão unânime: 10 varadas, que deveriam ser aplicadas sobre as costas desnudas. Isto representava um castigo bem duro para eles, mas estavam acostumados a tudo. Também este castigo foi escrito no quadro negro.
Então começou a aula propriamente dita. Os rapazes sentiam-se orgulhosos por terem eles mesmos estabelecido as normas, que regeriam sua classe, e até terem marcado o castigo para o transgressor. O professor já não precisava impor castigos a ninguém. Toda a aula estava comprometida em fazer observar a nova ordem.
Durante alguns dias, para a maior admiração do Reitor, as aulas se sucediam na maior ordem possível. Mas no 5º dia registrou-se alguma agitação. Renê, que ameaçava surrar sozinho o novo professor, fora vítima de roubo. Sua merenda havia sumido da pasta. O professor acolheu a queixa e imediatamente transformou-se a aula numa espécie de audiência coletiva. Mas essa audiência de testemunhas e o subseqüente julgamento não duraram muito, pois logo foi descoberto que o ladrão havia sido o pequeno e magro Jim. O professor, com voz enérgica rematou: “Vocês fizeram e aprovaram as normas; a primeira delas reza: ‘Nunca mais roubar!’ Vocês também estabeleceram o castigo correspondente: ‘10 varadas sobre o dorso desnudo.’ Jim , você transgrediu a norma. Por isso vem pra frente! Deve ser castigado”.
O rapazinho ergueu-se todo acanhado e avançou trêmulo para a mesa do professor. Vestia um casaco grande demais para ele, casaco que era trazido abotoado até a altura do pescoço. Jim suplicava entre lágrimas: “Senhor professor, o senhor pode bater-me tão duramente como quiser, mas eu lhe peço não me obrigue a tirar o casaco”.
“Tire o casaco! Você colaborou na elaboração das normas e também estava a favor do castigo a ser aplicado ao transgressor. O que foi escrito deve ser aplicado, tá?!”
Então, em tom ainda mais suplicante, o rapazinho implorou: “Senhor professor, não me obrigue a tirar o casaco...” Mas o professor, apesar de toda a súplica, começou a desabotoar. De repente estacou... O que estava ele vendo – e com ele toda a classe? O rapazinho não vestia camisa e em lugar de suspensórios, usava simples tiras de pano a sustentar-lhe as calças por cima do corpo emagrecido.
“Como posso eu bater num coitado como este” Pensou o professor. Mas, mordendo os beiços, resolveu enfrentar duro a situação. Se cedesse agora, a disciplina desmoronaria. Parecia ser desumano, mas o castigo tinha que ser aplicado.
Na sala de aula reinava um silêncio sepulcral. Aqueles rapazes , há pouco duros e indomáveis, pareciam comovidos e olhavam, ora para o professor, ora para o franzino colega, que soluçava sem parar.
“Como é que você não veste camisa?” indagou o professor.
“Senhor professor, meu pai morreu. A mãe trabalha o quanto pode para sustentar-nos. Eu tenho somente uma camisa e esta a mãe lavou hoje. Por isso vesti o casaco de meu irmão maior e abotoei-o bem, para não sentir frio...”
O professor ergueu a mão com a vara. Parecia vacilar.
Então Renê foi para frente e disse. “ Senhor professor, se o senhor não tiver nada contra, eu me ofereço para receber em minhas costas o castigo de Jim.”
O Professor perguntou aos alunos se estariam de acordo. Leve murmúrio foi a resposta.
Renê tirou seu casaco... O professor bateu uma... Duas, até cinco vezes... Então, escondeu seu rosto entre as mãos e chorou. E não chorou sozinho. Toda a classe, outrora selvagem e insensível, chorou com ele.
De repente, o pequeno Jim atirou-se sobre Renê, abraçou-o e balbuciou entre lágrimas: “Renê, eu me arrependo tremendamente de ter roubado teu pão, mas eu tinha tanta fome. Renê perdoe-me. Eu gosto muito de ti, porque tu recebeste em meu lugar as varadas...”
Este fato é verídico e realmente aconteceu numa escola da França. Pois, desta história verídica deveríamos aprender alguma coisa: Ali está em primeiro lugar o fato de que todo ser humano, no mais profundo do seu ser, é muitas vezes bem diferente, do que aparece no seu exterior.
Este tal Renê, líder dos pequenos anarquistas, parecia verdadeiro filho de bandido. E, no entanto, evidenciou-se que ele, sob esta crosta áspera, possuía um coração compassivo. Mais ainda: um caráter nobre, pois do contrário não teria perdoado seu pequeno colega e tomado sobre si o castigo destinado a ele. Ao olharmos aos homens, deveríamos pensar mais nas palavras de Jesus: “O homem olha só o exterior, mas Deus olha o coração.”
E o que é mais importante: Renê, que foi vítima do furto, tomou sobre si o castigo destinado ao pequeno ladrão, de modo que este ficou livre de seu castigo. Não é isto exatamente o que Cristo fez por nós?
“Todo o castigo pesa sobre Ele, para que nós tenhamos paz...”- não assim que lemos em Isaías 53?
Paul Gerhardt, num de seus belos poemas diz assim: “ Eu, eu e meus pecados, quase tão numerosos como as areias do mar, causamos-Te o sofrimento das tuas dores. Eu, sim, eu é que deveria ser castigado; os flagelos e as cordas e tudo o que sofreste, eu ´q eu o merecia...”- Q.M.
TRADUÇÃO DE IR. A. VALDEMAR BÖSING, S.J.
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